Estudos associam jogos decisivos a aumento de emergências cardíacas; estresse, álcool e privação de sono estão entre os principais fatores de risco
Se você já ouviu a frase “aguenta, coração” durante uma partida da Copa do Mundo, saiba que ela vai além de um simples bordão. A saúde cardiovascular pode, de fato, ser impactada nos dias de jogos decisivos. Diversos estudos apontam aumento significativo de síndromes coronarianas agudas durante o torneio. Com a aproximação da Copa do Mundo 2026, especialistas em cardiologia do Grupo Amil e Rede Total Care fazem um alerta: a emoção intensa provocada pelas partidas pode representar um risco real para o coração, especialmente entre pessoas com fatores cardiovasculares preexistentes. O tema ganha relevância diante de evidências científicas que relacionam jogos decisivos de futebol ao aumento de infartos, arritmias e outros eventos cardíacos agudos.
Único país presente em todas as edições da Copa do Mundo e dono de cinco títulos mundiais, o Brasil tem uma relação emocional profunda com o futebol, o que pode impactar diretamente a saúde da população. Um estudo brasileiro publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia analisou mais de 155 mil internações por síndromes coronarianas agudas entre 1998 e 2010 e identificou aumento de até 16% na incidência de infarto em dias de jogos da Seleção Brasileira durante a Copa do Mundo.
Pesquisas internacionais reforçam o alerta. Durante a Copa de 1998, na França, houve aumento de 25% nas internações por infarto após a derrota inglesa para a Argentina nos pênaltis. Já na Copa de 2006, na Alemanha, um estudo apontou que assistir a partidas emocionalmente intensas mais que dobrou o risco de emergências cardíacas.
“Jogos decisivos da Copa do Mundo geram uma carga emocional intensa. Em momentos de grande tensão, ansiedade ou euforia, o organismo libera hormônios do estresse, como adrenalina e cortisol, que aumentam a frequência cardíaca, a pressão arterial e o consumo de oxigênio pelo coração”, explica o cardiologista e diretor médico de Gestão de Saúde da Amil, Diego Garcia.
Segundo o especialista, em pessoas predispostas, esse cenário pode desencadear infarto, arritmias e até casos de cardiomiopatia de Takotsubo, conhecida popularmente como “síndrome do coração partido”.
A preocupação é maior entre homens acima dos 40 anos, sobretudo aquele que apresentam fatores de risco, como hipertensão, diabetes, colesterol alto, tabagismo e obesidade. Além da tensão emocional, hábitos comuns durante os jogos também contribuem para elevar os riscos cardiovasculares, como consumo excessivo de álcool, cigarro, alimentação gordurosa, privação de sono e longos períodos de sedentarismo.
No entanto, torcedores aparentemente saudáveis também não estão totalmente livres de risco. Muitas pessoas convivem com hipertensão, colesterol elevado ou doença coronariana sem diagnóstico. Em situações de forte estresse emocional, esses problemas podem se manifestar pela primeira vez.
Segundo o cardiologista, pessoas muito ansiosas ou com dificuldade para lidar com situações de forte tensão emocional também podem se beneficiar ao evitar ambientes excessivamente estressantes durante as partidas.
“Por isso, o ideal é aproveitar o torneio com equilíbrio, evitando excessos de álcool, mantendo hidratação adequada, não interrompendo medicações de uso contínuo e respeitando os sinais do próprio corpo”, alerta Garcia.
Sintomas que exigem atenção imediata
Alguns sinais nunca devem ser ignorados, especialmente durante situações de forte emoção. O principal alerta é dor ou pressão no peito, principalmente quando irradiada para braço, costas ou mandíbula, ou acompanhada de suor frio, náusea e falta de ar.
Outros sintomas importantes incluem palpitações intensas, desmaios, tontura, dificuldade para respirar, fraqueza súbita em um lado do corpo, alteração da fala e confusão mental. Esses sinais podem indicar infarto, arritmias graves ou AVC.
Nessas situações, a recomendação é procurar atendimento médico imediatamente e não esperar “o jogo acabar”. Quanto mais rápido o atendimento, maiores as chances de evitar complicações e salvar vidas.
Para Diego Garcia, a prevenção é considerada fundamental, já que as síndromes coronarianas agudas costumam surgir de forma súbita. Manter os cuidados habituais e reconhecer precocemente os sintomas pode reduzir a gravidade desses eventos.


















