Era quase meia-noite, depois de um dia inteiro cercada de pessoas, ela percebeu que não tinha contado a ninguém como realmente estava. Abriu o celular, pensou em enviar uma mensagem para uma amiga, desistiu. Não queria incomodar.
Em vez disso, escreveu para o ChatGPT:
“Hoje foi um dia difícil.”
Em poucos segundos, recebeu uma resposta.
Não porque uma máquina fosse capaz de amar, mas porque, naquele momento, havia algo que ela não encontrava havia muito tempo: disponibilidade para escutar.
Talvez esse seja um dos retratos mais silenciosos da nossa sociedade, infelizmente. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão carentes de presença.
As conversas acontecem entre notificações. Enquanto alguém tenta dividir uma dor, o outro responde olhando para outra tela. Perguntamos “como você está?” quase por educação, mas raramente permanecemos tempo suficiente para ouvir a resposta. Quando a escuta desaparece, qualquer espaço que acolha nossas palavras pode trazer alívio e não há vergonha nisso.
Muitas pessoas encontram nela um lugar para escrever aquilo que nunca conseguiram dizer em voz alta, mas existe algo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir.
A experiência de ser olhado por alguém…um amigo que interrompe a própria pressa…o abraço que chega antes das palavras.
E, quando a dor insiste em permanecer, o encontro com um profissional qualificado, cuja escuta não oferece respostas prontas, mas ajuda a compreender aquilo que, sozinho, muitas vezes não conseguimos nomear.
Que a tecnologia continue sendo uma ferramenta valiosa para organizar pensamentos, mas que jamais nos faça esquecer que nenhuma máquina substitui um vínculo construído com respeito, presença e afeto.
É no encontro humano que, muitas vezes, a nossa história finalmente encontra um lugar para ser compreendida.
Autor
-
• Investigo as raízes da psique desde antes do nascimento.
• Autora | Palestrante | Psicanálise & Psicoembriologia
Instagram: Cintia Castro


















