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8 de março: ainda não há o que comemorar

Com média de quatro mortes por dia, país mantém patamar elevado de feminicídios; especialistas alertam que os crimes costumam ser desfecho de violência previamente instalada

Na véspera do Dia Internacional da Mulher, os dados mais recentes sobre violência de gênero no Brasil reforçam um cenário que contrasta com o caráter simbólico da data. Em 2025, o país registrou 1.470 feminicídios, média de quatro mulheres assassinadas por dia, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o Ministério da Justiça e Segurança Pública. A maior parte dos crimes ocorreu dentro da residência da vítima (64%), e aproximadamente 80% foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros.

No Sul do Brasil, o contexto regional reflete o desafio nacional. No Rio Grande do Sul, em 2025, foram registrados 80 feminicídios, e quase 70 mil Medidas Protetivas de Urgência (MPUs) foram encaminhadas ao Judiciário. Operações policiais resultaram na prisão de dezenas de agressores, com reforço da Patrulha Maria da Penha e equipes de pronto atendimento, ampliando a proteção às vítimas, segundo a Secretaria da Segurança Pública do Estado.

No primeiro semestre de 2025, foram registrados 718 feminicídios e 33.999 estupros contra mulheres no país, média de 187 casos por dia, segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero, elaborado pelo Observatório da Mulher Contra a Violência, vinculado ao Senado Federal.

Para a psicanalista Camila Camaratta, os números evidenciam que o feminicídio raramente representa um ato isolado. “Na maioria dos casos, trata-se do desfecho de uma violência que já vinha se manifestando. A agressão não começa no último dia; ela se instala gradualmente, em dinâmicas de humilhação, intimidação e escalada de conflitos”, afirma. Segundo ela, um dos fatores que contribuem para a permanência em relações violentas é a expectativa de mudança. “O que hoje parece suportável pode, amanhã, se tornar uma tragédia.”

Camaratta destaca que a dificuldade social de reconhecer a gravidade dessas dinâmicas também favorece a repetição dos casos. “Quando determinadas formas de violência são tratadas como ‘problema de casal’ ou conflito privado, a trajetória que antecede o crime tende a ser minimizada”, diz. Casos recentes também trouxeram à tona episódios de filicídio ocorridos em contextos de violência doméstica, em que os filhos são mortos como extensão da agressão dirigida à mulher.

Às vésperas do 8 de março, especialistas apontam que o debate não deve se restringir à punição dos crimes consumados, mas à identificação precoce dos sinais de risco. “Prevenir implica reconhecer que a violência tem trajetória. Interrompê-la antes do último ato é o verdadeiro desafio”, conclui Camaratta.

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Jornalista Responsável: Renata Rode
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Repórteres: Laura Leite, Hugo Pereira

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