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O que as empresas ainda precisam aprender sobre saúde mental

Lucas Fernandes - Créditos da foto: Divulgação

Por Lucas Fernandes, CHRO da Caju

Durante muito tempo, a saúde mental foi tratada nas empresas como tabu e um tema periférico, associado a ações pontuais de bem-estar ou campanhas de conscientização restritas a datas específicas do calendário. Esse cenário mudou de forma definitiva. A campanha que ocorre no Janeiro Branco é muito importante para jogar luz ao tema, mas o cuidado com a saúde mental não pode se limitar a um único mês. Hoje, falar sobre isso no trabalho é falar de produtividade, retenção de talentos, gestão de riscos e, de maneira cada vez mais clara, de
impacto financeiro nos negócios.

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. No Brasil, os afastamentos por transtornos mentais vêm batendo recordes ano após ano, dados da Previdência Social mostram que afastamentos por ansiedade e depressão mais do que dobraram de 2022 para 2024, pressionando tanto o sistema previdenciário quanto as estruturas internas das empresas.

Ao mesmo tempo, uma pesquisa conduzida pela Caju em parceria com a Consumoteca, encontrou na amostragem que 70% da Geração Z acredita que todos deveriam fazer terapia, e 32% já receberam diagnóstico de ansiedade ou depressão, indicando uma mudança profunda nas expectativas das novas gerações em relação ao papel das organizações no cuidado com a saúde emocional.

Esse debate ganhou novos contornos com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a reconhecer formalmente os riscos psicológicos no ambiente de trabalho a partir deste ano, reforçando a responsabilidade das empresas sobre o tema.

Mas há um aspecto que ainda costuma ser subestimado e que ultrapassa os limites de responsabilidade dos RHs: o custo da negligência. A OMS estima que 12 bilhões de dias úteis sejam perdidos todos os anos no mundo em decorrência de depressão e ansiedade, o que representa um impacto econômico de aproximadamente US$ 1 trilhão por ano. Esses números ajudam a explicar por que o bem-estar deixou de ser apenas uma pauta de cuidado humano e passou a ocupar espaço central nas estratégias de sustentabilidade e performance organizacional.

No cotidiano das empresas, esse impacto financeiro se manifesta de diferentes formas. O absenteísmo relacionado a transtornos mentais cresce de forma consistente, mas há também o efeito menos visível do presenteísmo, quando o colaborador está fisicamente presente, porém com desempenho comprometido. Soma-se a isso o aumento do turnover emocional, caracterizado por desligamentos motivados por estresse, burnout e insegurança psicológica, que elevam significativamente os custos de substituição, recrutamento e treinamento.

Há ainda fatores externos que ampliam esse cenário de pressão. Um levantamento realizado em 2024 com trabalhadores brasileiros feito por Cajuína, frente de inteligência e conteúdo da Caju, revelou que 42%
temem que as mudanças climáticas afetem sua saúde mental. O bem-estar, portanto, passa a ser influenciado não apenas pelo ambiente interno, mas também por inseguranças sociais, econômicas e ambientais.

Diante desse cenário, tratar a saúde mental apenas de forma reativa é insuficiente. É preciso avançar para uma lógica de gestão baseada em dados, prevenção e monitoramento contínuo.

A atualização da NR-1 reforça esse movimento ao estabelecer um novo patamar de responsabilidade para as organizações. Mais do que atender a uma exigência regulatória, trata-se de uma oportunidade para estruturar políticas consistentes, capacitar lideranças e criar ambientes de trabalho mais seguros, saudáveis e produtivos. Empresas que se antecipam a esse processo tendem a reduzir riscos legais, melhorar seus indicadores de clima e engajamento e, consequentemente, obter ganhos financeiros no médio e longo prazo.

Cuidar da saúde mental no trabalho não deve ser interpretado como uma concessão ou um custo inevitável. Trata-se de um investimento estratégico na longevidade dos negócios, na inovação e na capacidade das empresas de atrair e reter talentos em um mercado cada vez mais competitivo. O impacto humano é inquestionável. O impacto financeiro, agora, também é impossível de ignorar.

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