Na contramão dos números, Escola Gracinha estrutura projeto antibullying integrado à formação dos estudantes
Um em cada quatro adolescentes de 13 a 17 anos sofre bullying na escola na América Latina, e seis em cada 10 crianças e adolescentes de até 14 anos vivenciam algum tipo de disciplina violenta em casa. Os dados constam de um levantamento conjunto da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e do Unicef, divulgado no início de 2026. Diante desse cenário, instituições de ensino brasileiras, como a Escola Gracinha, passam a adotar ações antibullying voltadas à identificação precoce de situações de violência e à conscientização da comunidade escolar.
Essas iniciativas fazem parte do projeto pedagógico e estão associadas à formação integral dos estudantes. Para a coordenadora de apoio à vida escolar da Escola Gracinha, Celina Fernandes, tratar o bullying de forma estruturada é uma resposta necessária ao aumento de episódios de violência nas relações escolares. “A gente entende que o antibullying é um tema da formação dos estudantes do ponto de vista integral e de um projeto de sociedade. Abrir esse debate no projeto pedagógico é extremamente importante, porque as situações são cada vez mais frequentes”, afirma.
A proposta da escola parte do entendimento de que a educação não se limita ao desenvolvimento cognitivo. O trabalho com valores, limites e escolhas conscientes é visto como ponto essencial do processo formativo, especialmente em um contexto em que práticas de violência tendem a ser naturalizadas desde cedo.
Nesse sentido, a iniciativa está baseada no conceito de autonomia moral. “Para além da autonomia intelectual, que é uma função mais tradicional da escola, é fundamental criar condições para que o estudante possa dizer ‘não’ a situações com as quais não se identifica e que não são condizentes com os valores que ele desenvolveu”, explica Celina.
Na prática, essa abordagem se concretiza em encontros regulares conduzidos pela orientação educacional, realizados de forma semanal ou quinzenal, conforme a série. Esses momentos funcionam como espaços de escuta e diálogo, nos quais os estudantes podem trazer situações do cotidiano ou discutir temas propostos a partir da observação das relações dentro da escola.
“São momentos em que discutimos as relações entre os estudantes, ou entre estudantes e funcionários, sempre a partir do que emerge no dia a dia ou do que faz parte do planejamento da orientação educacional”, diz a coordenadora.
O projeto contempla alunos desde os primeiros anos até a terceira série do Ensino Médio e envolve o trabalho integrado da orientação educacional e do setor de apoio escolar. A proposta é estimular empatia, solidariedade, respeito às diferenças e colaboração, levando os estudantes a se colocarem no lugar do outro e a compreenderem os impactos de suas atitudes.
A identificação precoce de possíveis casos é tratada como prioridade. Relatos feitos por famílias, estudantes ou educadores são analisados com cuidado para evitar que conflitos pontuais evoluam para práticas sistemáticas de violência.
“Quando alguém nos procura relatando uma situação, entendemos que, se não houver intervenção, aquilo pode se tornar bullying”, afirma Celina. Segundo ela, o primeiro passo é garantir um ambiente seguro de escuta, tanto para quem traz a situação quanto para a possível vítima.
A partir daí, a escola adota uma estratégia de mediação individual, ouvindo os envolvidos e estimulando a reflexão sobre comportamentos e consequências. O processo também busca identificar dinâmicas de liderança e submissão, comuns em episódios de bullying, para orientar intervenções mais eficazes.
As famílias são convidadas a participar das conversas com a orientação educacional e do acompanhamento dos estudantes, ampliando o alcance das ações para além do espaço escolar. “Muitas vezes, o estudante participa de uma situação de violência por medo de não fazer parte do grupo. Trabalhar essa consciência, inclusive com o apoio das famílias, é essencial para que ele perceba que poderia ter dito ‘não’ a situações de violência”, conclui Celina.
















