Entenda agora como é o jogo da escolarização

Por Edith Rubinstein, pedagoga, psicopedagoga, terapeuta familiar, mestre em psicologia educacional e Coordenadora do Centro de Estudos Seminários de Psicopedagogia.

Não se nasce estudante. Somos preparados para aceitar o jogo da escolarização desde a educação infantil, ou melhor, desde o nascimento. Os adultos nos introduzem na cultura e muito cedo devemos aprender a lidar com o pertinente desconforto do mal-estar da civilização. Esse é o jogo para a hominização. Da aprendizagem depende nossa sobrevivência física e cultural.Aqueles que não entram nesse jogo tornam-se indivíduos disfuncionais ou como diz Feuerstein, “com privação cultural decorrente da dificuldade de lidar com os objetos e valores de sua própria cultura.” Destacarei três queixas recorrentes que descrevem a “disfuncionalidade” da criança no contexto escolar: atenção e distração, dificuldade para a escuta e baixa tolerância ao esforço e frustração.

Atenção e distração
É possível compreender atenção como uma construção, sem desmerecer seu aspecto funcional orgânico. Metaforicamente, relaciono atenção enquanto função, com investimento amoroso e cuidadoso na relação com o objeto. Escolho a expressão hebraica, lassim lev – “prestar atenção” – que “literalmente” significa “colocar o coração”. Atenção relaciona-se com a energia do investimento, a qual demanda escolha: ao investir num objeto é preciso simultaneamente “desinvestir” em outro. Essa troca não é de fácil manejo, demandando resignação e ressignificação a posteriori. As crianças que relutam a sair dos jogos no celular e tablet para aceitar o jogo proposto pela escolarização. Aceitação de limites também é desafiador, mas, é claro, tudo isso faz parte do contexto.


É possível compreender atenção como uma construção, sem desmerecer seu aspecto funcional orgânico. Metaforicamente, relaciono atenção enquanto função, com investimento amoroso e cuidadoso na relação com o objeto. Escolho a expressão hebraica, lassim lev – “prestar atenção” – que “literalmente” significa “colocar o coração”. Atenção relaciona-se com a energia do investimento, a qual demanda escolha: ao investir num objeto é preciso simultaneamente “desinvestir” em outro. Essa troca não é de fácil manejo, demandando resignação e ressignificação a posteriori. As crianças que relutam a sair dos jogos no celular e tablet para aceitar o jogo proposto pela escolarização. Aceitação de limites também é desafiador, mas, é claro, tudo isso faz parte do contexto.

Dificuldade para a escuta
Manifesta-se a partir da limitada reciprocidade do aluno diante das solicitações acadêmicas. O aluno não escuta as instruções e as solicitações, sendo necessário que lhe repitam. O jogo disputado nesse contexto é o da dependência. Depende-se da “tradução” do outro para executar uma ação. Essa posição impede e dificulta o desenvolvimento das maturidades emocional e intelectual. Como as crianças vivem o estar sozinho consigo mesmos? Quais os efeitos da escolarização precoce na Educação Infantil que limita a brincadeira? Por que a tolerância ao esforço é entendida como sofrimento? Como lidar com o não-saber imediato?

Baixa tolerância ao esforço e frustração
Na cadeia de questionamentos, relaciono outra capacidade humana: a resignação enquanto aceitação da regra e de limites. É indiscutível a desvalorização e a dificuldade para aceitação das regras e limites, de modo geral, na sociedade contemporânea. O discurso “tudo pode, posso tudo” está vivo e presente no processo de aprendizagem formal e informal na família e na escola. O discurso do “jeitinho” é familiar e usual não somente nas esferas públicas. Em síntese, atenção significa investir amorosamente e, simultaneamente, selecionar/focar deixando de lado outros objetos (“desinvestir”). Este movimento exige resignar-se diante do limite e do esforço que o aprendizado exige. Como lidam com o esforço as pessoas? Como ressignificam os efeitos do esforço?


No cotidiano de muitas crianças e adolescentes, observo o excesso de atividades complementares, o que não contribui para o aprendizado do foco, enquanto escolha do objeto de interesse. Na prática, vemos alunos solicitando aos pais muitas atividades extracurriculares. Na intenção de atender aos interesses dos filhos, alguns pais têm dificuldades para colocar limites. Desse modo, o foco fica parcialmente distribuído por diversos objetos e o vínculo é superficial e frágil. Continuando na cadeia da função atenção-foco-seleção, acrescento outra função construída na relação com o outro: o de estar só consigo mesmo na presença do outro.

Mas qual é a importância do aprender de ficar só consigo mesmo? O aluno bem-sucedido é aquele que faz suas lições sozinho, revê sua produção, controla e gerenciar seu tempo, espera e suporta a angústia do não saber e, por fim, vai em busca de respostas para suas  dúvidas e conflitos. Essas ações, que representam um modo de estar no mundo, são manifestações de autonomia e autoria de pensamento que puderam ser construídas a partir do aprendiz estar só consigo mesmo na presença do outro. Porém, este aprendizado foi construído na relação com adultos significativos. É uma construção feita a dois, pois depende de como o adulto significativo contribuiu com a sua presença na “medida certa” enquanto “educador suficientemente bom”, usando o conceito winnicottiano de mãe suficientemente boa. A construção da autonomia é um processo que leva tempo e demanda trabalho tanto do educador quanto do aprendiz.


“Nascemos para aprender, aprendizagem permite a sobrevivência da espécie e da cultura (Pain, 1998).” Porém, paradoxalmente, aprender é uma ação muito complexa que demanda do psicopedagogo capacidade de escuta, olhar sensível e técnica apoiada teoricamente por diferentes áreas de conhecimento. Nem sempre são considerados nas análises das dificuldades de aprendizagem os seguintes aspectos: a) a complexidade do ensinar e do aprender; b) as vicissitudes pertinentes ao discurso da aprendizagem, isto é, variações e vulnerabilidades presentes no contexto educacional.


Diferentemente da criança da escola moderna, o aluno da contemporaneidade tem muita voz, o que se manifesta através dos discursos: “só me interesso por aquilo que gosto e por aquilo que me será útil; rejeito aquilo que não entendo e, portanto, desgosto”. O desafio da escola contemporânea é maior do que na escola tradicional na medida em que as respostas não são únicas e não há receitas prontas. Como já foi dito, será a posteriori que se saberá dos possíveis efeitos de um ato pedagógico.

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